sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012







Φ  Capítulo I: Uma descoberta- Gabriel  Φ







     Você sabe quando um dia seu muda de repente? Tudo aquilo que você tinha planejado não acontece e, ainda pior, acontece tudo ao contrário? Então, multiplica isso para toda a sua vida e você vai imaginar o que aconteceu comigo, Gabriel Baptista Bardini, mais precisamente no dia 21 de dezembro de 2010.
     Mas antes, vou contar um pouco da minha história. Quer dizer, só as partes mais interessantes e estranhas. Bom, pra começar, eu nunca conheci meu pai, minha mãe nunca quis falar sobre ele, sempre se esquivava, mudava de assunto. Até alguns anos atrás, eu achava que era porque tinha sido algo dramático, que ia me traumatizar, tipo, meu pai tinha matado um cara e estava preso, ou, talvez ainda, tinha apenas deixado eu e minha mãe sem mais nem menos. Mais tarde eu fui descobrir a verdade, mas isso você verá mais à frente.
     Eu moro em São Paulo, em um sobrado verde, bem velho, mas que já passara por várias reformas e não aparentava tanta idade assim.
     Quando eu tinha três anos, eu estava com minha mãe, em Bonito, uma pequena, mas muito bonita cidade do Mato Grosso do Sul. Estávamos em um dos locais de passeio turístico preferidos do pessoal de lá: a gruta do lago azul. E eu, que sempre fui um pouco hiperativo, estava correndo e pulando por lá, quando caí na lagoa. Eu achava que ia morrer, mas, por incrível que pareça, durante os dez minutos em que eu fiquei na água enquanto os guias arranjavam um jeito de me socorrer, eu nem me molhar molhei, e eu mesmo, que nadei até a superfície e fiquei lá esperando pela boia.



     Mas, como eu tinha três anos, eu nem fiquei muito surpreso, não liguei muito para o fato, e, logo já estava correndo pela gruta de novo. Então, meu cérebro tinha guardado essas memórias em um lugar bem, mas bem fundo, porque eu só me lembrei dela depois que alguns fatos ocorreram comigo e que logo descreverei.
     Desde então, minha mãe evitava que eu ficasse perto de piscinas, rios, lagoas, poças d'água, e qualquer coisa que tivesse água. Eu não entendia o porquê, mas parecia que ela tinha receio de que alguém notasse que eu não me molhava na água, o que era uma coisa meio incomum de se ver. Com uma probabilidade de um em sete bilhões mais ou menos de se acontecer com alguém.
     Com dez anos, eu fiz uma coisa mais surpreendente ainda: eu havia me metido em uma briga de escola (o motivo não vem ao caso, mas logo digo, que como eu não era muito normal, e não sou até hoje, era comum eu voltar de olho roxo e com uma suspensão para casa), mas essa briga, era num beco, que fica bem ao lado da escola, um beco bem sujo por sinal, haviam muitas latas e sacos pretos grandes de lixo lá. Eu, por instinto peguei a tampa de uma dessas lixeiras, e, um pedaço de madeira, e fiquei em posição de luta. Igualzinho a um guerreiro de verdade, e eu nunca treinara, nem mesmo havia assistido muitos filmes dese gênero. 
       Mas o mais impressionante vem por aí. Começou a chover, e, em mim, além de não cair pingos, eles se juntavam e caiam bem maiores no valentão que estava brigando comigo. 



Ele ficou até com uns hematomas, mas isso, eu também não guardei na memória, pois eu não achava que tinha alguma coisa a ver com aquilo. Mas agora eu entendo e logo logo você entenderá.
     Agora voltando ao dia 21 de dezembro, era mais um dia normal pra mim, aquele barulho irritante do meu despertador, que eu de certa maneira já me acostumara e quase dormia de novo, já tocava, mas sempre minha mãe, Ana Maria Bardini, vinha me acordar.
     Ela era uma pessoa simples, mas bem bonita até, tinha cabelos castanho claro, bem sedosos devido à meia-hora diária reservada apenas para os cremes pós-banho. Olhos também castanhos, um pouco acinzentados, u m rosto que sempre exibia um sorriso, nunca forçado, às vezes mais disfarçado, mas sempre lá. Usava roupas simples, uma calça jeans, tênis rainha, e uma camiseta sem estampa, cada dia de uma cor.
     — Vamos filho — dizia ela docemente. — acorde, está um lindo dia lá fora.
     — Como um dia pode ser lindo se eu tenho que ir para a escola? — perguntei eu.
     Ela deu uma pequena risada e ofereceu a mão para levantar. Segurei a mão dela e me pus sentado na cama, senti uma sensação estranha, não sei o que era, mas aquele dia não seria como os outros, disso, eu tinha certeza. Fui até meu guarda-roupa e peguei algumas roupas para vestir: camisa três quartos azul marinho com linhas verticais prata, uma camiseta do ACDC para por por baixo, uma de minhas bandas preferidas, uma calça jeans azul e um tênis adidas.
     Olhei para o lado do quarto e vi algo diferente: uma mochila bege estava dependurada atrás da porta, no lugar de minha antiga mochila preta.
     — Mãe! — exclamei eu. — Você comprou uma mochila nova pra mim!
    — Comprei? — perguntou ela em tom surpreso. — Ah, sim, essa ai, uma surpresa para o meu filhão.
     Mas agora eu já achava que não era ela quem havia me dado esse presente. Que ela nem sabia que estava lá. E, mais ainda, por que ela me daria uma mochila nova se eu tinha apenas mais um exame para fazer na escola? Definitivamente aquele dia estava estranho.
     Tomei meu café rapidamente e desci correndo, pois se não o fizesse chegaria atrasado. Bom, assim que desci avistei pelo menos uma coisa normal: Meu amigo Arthur, estava lá me esperando do outro lado da rua, pois nós sempre íamos juntos à escola.
     Ele era um menino loiro, de 13 anos assim como eu, usava uma bermuda xadrez branca e marrom, uma camiseta regata laranja, e um sapa-tênis. Ele era uma das pessoas mais inteligentes que eu já vira e gostava de projetar construções, embora nunca tivesse feito isso, para realmente construir uma, apenas fazia seus esboços. Ele dizia que um dia seria arquiteto. Ele nunca havia visto sua mãe, seu pai dizia que ela tinha morrido, eu, por minha vez, nunca tinha visto meu pai, minha mãe nunca quis tocar no assunto direito, sempre se esquivava e mudava de assunto.



      —  Gabriel — disse ele com tom preocupado. — eu sei que vai ser uma pergunta meio sem sentido mas... você tem sentido o dia meio estranho hoje?
     Eu arregalei os olhos, então não era só eu? O que estaria acontecendo? Ou seria apenas coincidência?
     — Sim — eu respondi. — Mas não sei dizer o que é, é apenas uma sensação estranha.
   Contei a ele sobre a mochila que aparecera milagrosamente lá em casa. Fomos conversando sobre dias estranhos até a escola.
     Lá na escola, eu tinha apenas um exame para fazer, o de português, matéria que eu sempre fui péssimo. E ele não era no primeiro horário, então, fiquei sentado em uns bancos que tem nos corredores. Estava tudo vazio, afinal, a maioria dos alunos já estava de férias. Apenas um ou outro passavam, e um faxineiro ali e um professor apressado acolá.
     Do lugar do corredor em que eu estava, dava para ver a rua, e lá, uma coisa me surpreendeu: um camaro preto estava estacionado em frente, me surpreendeu porque naquela escola, não tinha nenhum aluno rico o suficiente para comprar um carro daqueles, e, eu nunca vira aquele carro por lá.
     A secretaria ficava bem em frente ao portão que dava para a rua, e eu estava sentado perto dos dois. Debruçado em um parapeito da janela da secretaria, onde os pais são atendidos, estava um homem, que eu só vi de costas, ele usava um terno preto. Um executivo podre de rico dono daquele camaro _ pensei eu. _ veio matricular o filho aqui.
     Pensei isso até que a secretária, com um gesto discreto, apontou para mim, e, o homem, por sobre os ombros, me olhou, me estudou, cumprimentou a secretária, ia se virando para mim quando o sino do horário da minha prova tocou e eu me levantei. Então, ele se virou e foi em direção à rua.
    Uma menina que estava sentada no lado de fora, se levantou e o acompanhou até o carro. Também a vi só de costas, mas, tive um pressentimento de que a veria muitas vezes, e ao homem também.
    Fiz minha prova, quando terminei, Arthur me esperava em frente à secretaria. Convidei-o para almoçar em casa, e ele, como o morto de fome que sempre foi, aceitou.
     Chegando lá, fui “explorar” melhor minha mochila, pois só tinha aberto o bolso principal na escola. E, em um dos bolsos, havia um relógio, parecia todo de ouro. Eu podia não saber quem havia me dado aquilo, mas não iria recusar um relógio de ouro.
     A campainha soou.
     — Filho — gritou minha mãe da cozinha. — Abra a porta por favor?
   Levantei-me do sofá e abri. Do lado de fora, um homem de meia idade e uma menina muito bonita estavam de pé em frente à porta.
     — Então, — disse o homem olhando para o meu pulso. — você já encontrou os presentes.
     Ele usava um terno completo, todo preto com uma camisa branca por baixo e gravata também preta, o que o dava um ar de agente secreto. Seu rosto era tomado pela sua barba que já ia ficando grisalha, mas ainda algumas pequenas partes castanhas. Seu cabelo bem castanho ainda, estava preso em um pequeno rabo de cavalo. Tinha os olhos pretos e algumas rugas. Foi quando eu reconheci: era o homem da escola. Quase fechei a porta na cara dele, mas desisti da ideia.
     —Ah! — exclamei eu. — então foram vocês!
   — Tecnicamente não — respondeu a menina. — Mas depois explicamos. Prazer, eu sou Rachel.
     Ela usava um short jeans pequeno, uma sandália rasteira, e uma camiseta branca com um coração no meio. Era loira, com olhos azuis. Seu cabelo estava também preso em um rabo de cavalo. Ela exibia um sorriso, e eu quase esquecera que eles eram desconhecidos e que não devia sair conversando assim com eles.
     — Venham conosco — disse o homem. — temos pouco tempo.
  — Ah — disse eu em tom irônico. — Claro que eu vou sair com desconhecidos assim, de repente. E, não era você que estava la na minha escola?
     O homem fez que sim com a cabeça.
     — Sim, estávamos atrás de você, mas você foi fazer prova bem na hora em que íamos falar com você, então, decidimos vir diretamente aqui, até sua casa.
     Minha mãe, ouvindo a conversa saiu da cozinha e veio para a sala.
     — Mãe — disse eu. — nem precisava ter vindo, já estou mandando eles embora.
   — Está na hora? — perguntou ela para o homem sem dar a mínima importância para o que eu dissera 
     Ele assentiu.
     Minha mãe se virou para mim e disse: 
     — Filho, eu quero que você vá com ele. 
    — Você conhece esse cara? — perguntei eu a minha mãe. — Quem é ele? Por que ele quer que eu vá com ele? Aonde ele quer que eu vá com ele?
    — Ele vai te responder mais calmamente, mas depois, filho. O que eu posso te dizer agora é que você PRECISA ir com ele! Você e Arthur também.
      — EU?! — perguntou ele surpreso.
    Olhei pra ele, tentei aparentar segurança, embora eu mesmo não estivesse entendendo a situação, e disse:
      — Vamos, deve ser algo importante.     
     Minha mãe voltou a insistir:
      — Filho, vá com ele sim.  
     — Que bom que vocês vem! — disse o homem estampando um sorriso — Muito prazer, meu nome é Alfeu.








2 comentários: